"Viraram três estrelinhas", quanta maldade há nestas três palavras juntas formando uma frase de consolo.
Quem em sã consciência quer que alguém querido, ou apenas próximo, de carne e osso vire uma estrela? Ninguém.
Lembro-me de noites e noites eu ficar olhando pro céu tentando adivinhar quais eram as três estrelinhas em que papai, mamãe e meu irmão tinham se transformado. Às vezes decidia por três quaisquer e esperava que fizessem um sinal pra mim, acenando ... com um brilho mais forte... que eu havia acertado.
Não preciso dizer que passei horas e horas tentando encontrá-los no céu. E a tortura de deitar em minha cama, cobrir a cabeça com o travesseiro, tentando sufocar a dor por me sentir tão incompetente em encontrá-los.... tão competente em não encontrá-los... quanta dor, raiva, ódio... de mim, das estrelas, de Deus (ou qualquer algo que tivesse me presenteado com uma família e, depois, tirado.. tudo de uma vez... e não me deixar sequer distingui-los do meio de tantas estrelas... todas iguais). Odiei a vida.
Por um bom tempo...chorei. 'Quem sabe com minhas lágrimas comovo alguém!?'
Nada... nem ninguém me atendeu. Até o momento em que acho que me acostumei.
Eu me acostumei a não ter esperança. Depois fui entendendo, deixando de ter raiva... acreditando, desacreditando... vivendo, como uma pessoa normal.
Assim é que é feita a vida: a gente nasce e a gente morre.
Não adiante reclamar, nem espernear; já é determinado... predeterminado. E quando entendi isso, mais ainda achei melhor as coisas terem acontecido como aconteceram. Um pouquinho diferente, e a dor seria de um dos três... e eu não queria isso pra nenhum deles.
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