quinta-feira, 30 de maio de 2013

Noa saiu da água, sentou ao meu lado e me perguntou: 'quer saber por que estou indo pra África?'.

Sim, quero... e ele começou um verdadeiro monólogo, interrompido de quando em vez por 'hum.. hum... entendi', meus.

'Nasci na Áustria. Conheço mais de setenta países, vivi em quase dez diferentes. Meu pai foi Embaixador do Brasil por muito tempo. E por essa razão viajávamos muito. Conheço muitos lugares, conheci muita gente.

Sempre tivemos uma vida muito tranquila, nunca nos faltou nada, estávamos sempre cercados por pessoas atentas às nossas necessidades.

Meu pai e minha mãe, embora com todo o dinheiro, regalias, cuidados que tínhamos, sempre nos mantiveram com os pés bem no chão. Claro, nunca nos privaram de nada que o dinheiro pudesse comprar: roupas, boa comida, brinquedos - quando crianças -, melhores escolas.

Eu e meus irmãos - JC o mais velho e AC a caçula - falamos com total domínio sete línguas: português, inglês, francês, espanhol, italiano, alemão e russo... nossas vidas nos permitiram isso, nossas viagens... e, acima de tudo, a sabedoria de nossos pais em nossa educação. Educação de elite? Sim tivemos isso.

Mas tivemos muito mais... tivemos amor e carinho de nossos pais, vivemos em um lar em que não faltava absolutamente nada de material e nada de mais nada. Cresci em uma família equilibrada com pais extremamente altruístas. Conheci o significado de filantropia... nem lembro quando.

Morei na África dos meus 8 aos 12 anos. Na África do Sul, claro.

E conheci o outro lado da África pelos olhos de mamãe. Ela é enfermeira... deixou de trabalhar quando AJ nasceu e se tornou mãe em tempo integral pra sempre desde então.

Quatro ou cinco vezes por ano, íamos - ela, nós, os três filhos, e o motorista de papai - para alguma cidadezinha... um vilarejo qualquer... uma tribo escolhida a dedo por mamãe. Íamos carregados de roupas, mantimentos, brinquedos, medicamentos e o amor de minha mãe pelo ser humano entregar tudo a algum responsável que pudesse distribuir entre as pessoas do lugar escolhido.

Uma verdadeira aventura para mim e meus irmãos.

Normalmente eram missionários, freiras,... pessoas que haviam abdicado de suas vidas para minimizar a dor do outro que nos recebiam no local. Nosso contato era sempre com esses voluntários... de algum órgão, instituição... Nunca tínhamos contato direto com quem recebia o que doávamos.

Passávamos por esses lugares e voltávamos para o oásis que era a nossa casa. Não ficávamos para ver a miséria, a dor, a tristeza, o sofrimento... nem a alegria de quem recebia os donativos.

Em uma dessas viagens, o carro estragou e precisamos ficar um dia até que chegasse socorro mecânico... e aí eu desci do carro.

Foi a primeira vez... e lembro que insisti com Will - nosso motorista - que andasse pelas ruas comigo - eu estava curioso... queria ver o rosto das pessoas de quem mamãe sempre falava com enorme emoção na voz.

Que rosto têm essas pessoas que não têm nada?

Ele concordou, com autorização de minha mãe, é claro.... meus irmãos ficaram com ela na pequena casa dos missionários que fariam a entrega dos 'presentes'.

Foi nesse passeio que decidi meu futuro: eu seria médico e trabalharia num lugar como aquele... eu ajudaria pessoas, estava decidido.

De astronauta... sim, eu quis ser astronauta rs... para veterinário - dos meus safáris pela África - passei à medicina de gente... de gente que desesperadamente precisa de ajuda.

E amanhã eu parto... sabe como eu vejo este mundo como vivemos? Como um enorme quebra-cabeças que alguém está tentando montar e não consegue colocar as peças certas no lugar certo. É um enormíssimo quebra-cabeças com a maioria das peças fora do lugar... há buracos, há peças espremidas demais entre outras que exercem uma força monstruosa, há peças jogadas em um canto, esperando para serem colocadas no lugar certo... e há algumas exatamente onde devem estar... são tão poucas essas.

Eu vou me colocar no lugar certo... sou um grãozinho de nada que vai tentar ajustar um pedacinho de nada deste mundo todo torto... não farei grande diferença... mas não importa o tamanho - eu seria louco de querer consertar o mundo, não é!? Vou consertar o que minhas mão conseguirem consertar... é isso'.

Pra você o mundo é um quebra-cabeças?, perguntei.... pra mim é um enorme balaio de gatos... que não conseguem sair dele e pra sobreviver um vai comendo o outro... o mundo é isto pra mim: um balaio de gatos... em que quem pode mais/ou mia mais chora menos.... sofre menos.
Canibais... comendo sua própria carne.

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