Naquele dia, aconteceram tantas coisas. Primeiro foi um acidente no túnel onde passo diariamente para ir trabalhar. Dois mortos. Estou tão acostumada com acidentes, feridos, mortos. Sempre dizem que a gente se acostuma com tudo. É verdade.
Lembro da primeira pessoa acidentada que atendi. E ela morreu cinco minutos depois de eu colocar as luvas pra começar os procedimentos. Não deu tempo pra nada. Ela estava aí e logo depois não estava mais.
Lembro do choque que levei. Minhas pernas ficaram bambas, tive de sentar. E disfarçar... essa foi a pior parte, disfarçar que não estava envolvida.
Lembro das aulas na faculdade de medicina. Um professor bem velhinho sempre dizia: "O primeiro morto nas suas mãos é um choque". "Depois você vai se acostumando que as pessoas morrem e aceita que as pessoas morrem com a mesma naturalidade como elas nascem", completava ele, sempre.
Lembro que eu pensava: Não, não levarei um choque... e também não me acostumarei. Ledo engano, levei um choque sim e também me acostumei.
Então, o acidente no túnel causou o maior congestionamento. E, embora eu tenha saído de casa com tempo suficiente para até dar uma volta no parque próximo do hospital onde trabalho, cheguei atrasada. Cheguei 45 minutos atrasada. Quando entrei no meu consultório, só ouvi meu primeiro paciente irritadíssimo dizer: "Bem coisa de médico... sempre atrasados".
Lembro que pensei: "Esse cara não sabe de nada".
Continua....
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