sábado, 23 de março de 2013

Na verdade, nenhum de meus colegas se atrasa por que quer. Nenhum deles levanta de manhã e pensa: "Hoje vou me atrasar... vou deixar meus pacientes esperarem." Isso simplesmente não existe. O que acontece é que imprevistos acontecem, acidentes acontecem.

A vida é cheia de imprevistos e de surpresas... está sempre nos ensinando algo.

Meu primeiro paciente entrou na sala (aquele irritado, que disse que todo médico chega atrasado).

Era sua primeira consulta comigo. Fiz as perguntas de praxe e, em seguida, ele me relatou o que estava sentindo. Ouvi pacientemente e solicitei os exames necessários.

Depois de duas semanas, ele voltou. Os exames na mão, o olhar apreensivo. Adivinhei que ele sabia 'ler' um exame. A maioria dos meus pacientes chega sempre com um olhar de quem leu grego quando lê o resultado de seus exames.

Sabe o que senti quando olhei pra ele? Pena, muita pena. Ele sabia a vida que tinha pela frente. Ou melhor, a vida que não tinha pela frente. E eu... eu só tinha de confirmar. E foi o que eu fiz... morrendo de pena.

Pena. Sentimento confuso de descrever. Pena a gente sente de alguém incapaz, alguém que  está sofrendo. Queremos ajudar, mas percebemos que não temos na nossa mão o poder de diminuir, acabar com esse sofrimento. Sofremos com essa pessoa que está sofrendo.

Sofri muito no início da minha profissão... depois foi diminuindo. Hoje consigo dar as piores notícias sem me envolver emocionalmente. Acabei ficando fria. A vida me deixou fria pra eu conseguir seguir com a vida.

Quando senti pena do meu paciente irritado foi uma exceção... acho que foi porque primeiro senti raiva dele. Acho que é uma espécie de culpa, sei lá. Só sei que naquela manhã aprendi mais uma coisa: não devo sentir raiva de ninguém... sempre vai ser pior pra mim.

Continua... :)

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