Entramos no carro e a primeira coisa que Noa perguntou foi: "Enia está bom pra você?'.... Perfetto!, disse eu.
Noa com a bermuda ainda úmida da água do mar, com areia por tudo, sentou no banco de couro de seu carro de quase duzentos mil reais, como quem senta num fusquinha bem velhinho...
Completamente desprendido este homem...
Vamos pro sul, OK?
'Por que oncologia?', ele me perguntou...
Bem... tenho um relacionamento mórbido com a morte... e ao mesmo tempo um relacionamento de amor... é isso, acho...
Ele sorriu...
Perdi meus pais e irmão quando era pequena. Conheci a dor da morte muito cedo. Sei o estrago que ela causa. Oncologia é um desafio que lancei pra morte.... ela sempre vence, eu sei. Mas não sem antes enfrentar uma luta ferrenha comigo. A clínica toda sabe disso, meus amigos, conhecidos, amigos de amigos... todos sabem.
Quando alguém recebe a notícia fatídica: 'é câncer'... é pra mim que vem. E eu luto, luto como se fosse a minha própria vida em jogo.Mesmo sabendo de que no fim, ela sairá vencedora... eu fico firme... já consegui driblá-la muitas vezes... até que ela chega definitivamente... só então eu jogo a toalha. É isto: oncologia pra lutar contra a morte, ou pra empurrá-la um pouquinho mais pra lá no tempo.
É o que eu faço... empurro-a pra frente o quanto posso.
Sabe uma coisa interessante? Não sou só eu que faço tudo pra retardar a chegada da morte. Tenho pacientes muito ricos - eles têm plano de saúde, sim -, que pagam particularmente as minhas consultas... eu fico sem entender, ou melhor, eu entendo sim... é como se o dinheiro pudesse comprar um pouquinho mais de vida... como se pagando do próprio bolso tivessem mais direito à mais vida, sei lá...
Mas não há nenhuma distinção em meu atendimento: particular, plano de saúde, sus... não importa, pra mim paciente é tudo igual. Quando um chega, coloco minhas luvas de lutadora e nocauteio a morte até quase matá-la.
Mas ela não morre, né!? Então, meio inútil isso que faço - penso às vezes. O que significa prolongar a vida de uma pessoa um ano ou dois? Nada, absolutamente nada. Porque no fim desse tempo, ela inevitavelmente vai morrer.
A minha escolha é o Ribeirão da Ilha... toca pra lá... você vai comer a melhor empadinha do mundo e desistir de ir pra África só pra poder vir pro Ribeirão comer empadinha...
E ele sorriu.... meodeos que dentes brancos perfeitos!!
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