Chegamos ao Ribeirão da Ilha.....lugarzinho bucólico. Lá você se sente transportado para um outro mundo. O mundo da poesia, da calma, do canto dos passarinhos, das borboletas... é você de pé descalço...contato direto com a natureza.
O Ribeirão é de uma singeleza sem par... é simples, puro... não contaminado - ainda - pelo corre-corre, pela confusão, pela agitação do dia a dia da vida na cidade - só no verão.
Agora era o perfeito cenário de paz e sossego, que Noa precisava para dizer adeus à Ilha de Santa Catarina.
Estávamos com fome e, como eu havia prometido, levei-o ao lugar que oferece as melhores empadinhas do mundo... e comemos, e comemos... felizes, inebriados pelo momento que a vida estava nos dando de presente (isso também percebi depois, em retrospectiva).
Fomos caminhar na areia... o céu azul se tingia dos mais variados tons de rosa... no horizonte os últimos fiozinhos amarelos do sol.... e se fez noite.
Tínhamos de voltar e voltamos. Nenhum dos dois cogitava ficar para sempre ali naquele lugar perfeito.
Agora quando penso nisso, lembro que nossos passos em direção ao carro eram cada vez mais vagarosos...como se nunca quiséssemos chegar ao momento de dizer adeus...
Noa me deixou no estacionamento da clínica - onde eu havia deixado meu carro. E o que ele me disse nunca mais esqueci, nunca mais alguém conseguiu dizer algo que se aproximasse do que ouvi dos lábios dele.
'Eu havia planejado passar esta minha última tarde sozinho... queria guardar na memória e congelar nas lentes de meu celular o máximo que eu pudesse deste lugar que me acolheu tão bem, que me fez tão feliz. Eu ia passar por todas as praias pra dizer adeus e queria estar sozinho, porque queria estar de corpo e alma todo inteiro em cada lugar - só pra cada um dos lugares. Não por egoísmo... ou uma loucura qualquer... mas por respeito a quem estivesse comigo... eu sei que não conseguiria me dividir - e eu tenho um respeito muito grande pelo ser humano pra ignorar quem está do meu lado.
Eu sabia que minha atenção estava na despedida... eu estou em clima de adeus... talvez eu me comovesse, talvez sentisse vontade de chorar, e se alguém estivesse comigo, eu seguraria as lágrimas... e eu não estaria sendo verdadeiro. E... bem, eu só sei ser verdadeiro.
Mas o destino, a vida, sei lá... chame do que você quiser... colocou você, doc, no meu caminho. Ontem à noite... na minha festa de despedida, você entrou na minha vida... e hoje, de novo, quando vi... aí estava você....
E a única coisa que eu queria era que você não saísse um minuto sequer do meu lado. Quis a vida que você pudesse e se dispusesse a participar da minha despedida - dos amigos... e hoje deste lugar.
Eu havia planejado passar sozinho estas minhas últimas horas por aqui... mas não saiu como planejado: não passei sozinho, passei com você ao meu lado. Agora vou dizer uma coisa e espero que você entenda bem: passar com você foi como se eu estivesse passando sozinho, como planejado...
Deixe-me explicar: é como se você fosse a outra parte de mim... como se você fosse você, mas ao mesmo tempo fosse eu também.
Eu sozinho, ou eu com você não faz a menor diferença... tudo o que eu me permito fazer quando estou sozinho me permito igualzinho quando estou com você. É uma alma em dois corpos...
Queria ser poeta... talvez eu conseguisse descrever melhor o que sinto... é como se eu tivesse rodado o mundo inteiro buscando algo que eu não sabia o que era... e quando meus olhos cruzaram com os seus tive a resposta: o que eu procurava era você. E eu encontrei...
E agora eu vou partir...
Este lugar meu deu muitos momentos alegres... fui muito feliz aqui. E este lugar me deu o pedaço de mim que faltava... Eu sabia que faltava algo, alguém pra me completar... e eu conseguia viver bem com isso... eu pensava: um dia encontro e vejo que não é tão importante e continuo sem o pedaço que me falta.
Mas o pedaço que faltava é a parte mais importante de mim... não sei mais como vou conseguir ir adiante com minha vida sem o melhor de mim... você.'
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